25 de set de 2014

Uma Introdução Ao Primitivismo

Nota do autor:* Esta não é uma declaração definitiva, meramente um
relato pessoal, e procura, em termos gerais, explicar o que
se entende por anarcoprimitivismo. Não quer limitar
ou excluir, senão prover uma introdução geral ao
tópico. Peço desculpas pelas inexatidões,
más interpretações,ou (inevitáveis)
sobregeneralizações.


Que é o anarcoprimitivismo?

O anarcoprimitivismo (primitivismo radical, o primitivismo anti-autoritário, movimento anti-civilização, ou justo, o primitivismo) é um termo aquigráfico para uma corrente radical que critica a totalidade da civilização a partir de uma perspectiva anarquista, e procura iniciar uma transformação compreensiva da vida humana. Estritamente falando, não há uma coisa tal como o anarcoprimitivismo ou os anarcoprimitivistas. Fredy Perlman, uma das vozes importantes nesta corrente, disse uma vez, "Ao único 'ista' que respondo é ao de violoncelista". Os indivíduos associados com esta corrente não querem ser adeptos de uma ideologia, meramente pessoas que buscam tornar-se indivíduos livres em comunidades livres em harmonia uns com os outros e com a biosfera, e podem portanto recusar a ser limitados pelo termo "anarcoprimitivismo" ou qualquer outra etiqueta ideológica.

No melhor dos casos, então, o anarcoprimitivismo é uma etiqueta que convém ser utilizada para caracterizar indivíduos diversos com um projecto comum: a abolição de todas as relações de poder - por exemplo: estruturas de controle, coerção, dominação, e exploração - e a criação de uma forma de comunidade que exclua todas essas relações.


Então, por que o termo anarcoprimitivismo é usado para caracterizar essa corrente?

Em 1986, o círculo ao redor da revista Fifth State ("Quinto Estado") de Detroit assinalaram que estavam comprometidos em desenvolver uma "análise crítica das estruturas tecnológicas da civilização ocidental [,] combinado com uma revalorização do mundo indígena e o carácter das comunidades primitivas e originais. Neste sentido nós somos primitivistas…" O grupo Fifth State procurava complementar uma crítica da civilização como um projeto de controle com uma revalorização do primitivo, o que consideravam como uma fonte de renovação e inspiração antiautoritária. Esta revalorização do primitivo fez-se a partir de uma perspectiva anarquista, uma perspectiva preocupada com a eliminação das relações de poder.

Apontando para uma "síntese emergente da anarquia pós-moderna e do primitivismo (no sentido original), e uma visão entusiasmada baseada na Terra" O círculo de Fifth State indicava: "Nós não somos anarquistas por si, mas pró-anarquia, o que é para nós uma forma de vida, uma experiência integral, sem nenhuma relação com o Poder e recusando todas as ideologias… Nosso trabalho no FS como um projeto explora as possibilidades para a nossa própria participação neste movimento, mas também trabalha para o redescobrimento da raízes primitivas da anarquia bem como na documentação da sua expressão atual. Simultaneamente, nós examinamos a evolução do Poder no nosso meio para sugerir novos terrenos para a contestação e a crítica para minar a tirania atual do moderno discurso totalitário - essa hiper-realidade que destrói o sentido humano, e consequentemente solidariedade, ao simulá-la mediante a tecnologia. Sublinhando todas as lutas pela liberdade nesta necessidade central: recuperar um autêntico discurso humano fundamentado na autonomia, mutuamente intersubjetivo e estreitamente associado com o mundo natural".

O objectivo é desenvolver uma síntese da anarquia primária e a anarquia contemporânea, uma síntese dos aspectos ecologicamente focalizados, não estatais, antiautoritários dos modos de vida primitivas com as mais avançadas formas da análise anarquista das relações de poder. O objectivo não é fazer uma réplica ou voltar ao primitivo, é meramente ver o primitivismo como uma fonte de inspiração, como exemplos de formas de anarquia.

Para os anarcoprimitivistas, a civilização é um contexto no qual se desenvolvem a multiplicidade das relações de poder. Algumas relações de poder básicas estão presentes nas sociedades primitivas - e esta é uma das razões pela qual os anarcoprimitivistas não procuram reproduzir estas sociedades - mas é na civilização onde as relações de poder acabam dominantes e arraigadas em praticamente todos os aspectos da vida humana e das relações humanas com a biosfera. A civilização - também referida como a mega-máquina ou Leviathan – converte-se numa imensa máquina que ganha o seu próprio impulso e acaba fora de controle, inclusive dos seus supostos administradores. Fortalecida pelas rotinas da vida quotidiana a qual são definidas e administradas por padrões interiorizados de obediência, as pessoas tornam-se escravas da máquina, do sistema de civilização propriamente dito. Só uma rejeição generalizada deste sistema e as suas variadas formas de controlo, sublevando-se contra o próprio poder, pode abolir a civilização, e propor uma alternativa radical. Ideologias tais como o Marxismo, o anarquismo clássico e o feminismo opõem-se a aspectos da civilização; apenas o anarcoprimitivismo se opõe à civilização, o contexto na qual as variadas formas de opressão proliferam e se tornam dominantes - e, por tanto, concebíveis.

O anarcoprimitivismo incorpora elementos de várias correntes de oposição - consciência ecológica, anti-autoritarismo anarquista, críticas feministas, ideias Situacionistas, teorias do zero-work (zero-trabalho), criticismo tecnológico - mas vai além da oposição a determinadas formas de poder para recusar todas elas e propor uma alternativa radical.


Em que difere o anarcoprimitivismo do anarquismo, ou de outras ideologias radicais?

A partir da perspectiva do anarcoprimitivismo, todas as outras formas de radicalismo aparecem como reformistas, ainda que elas se vejam ou não como revolucionárias. O marxismo e o anarquismo clássico, por exemplo, querem tomar a civilização, remodelar as suas estrutures em algum grau, e eliminar os seus piores abusos e opressões. De qualquer maneira, 99% da vida na civilização mantém-se sem mudança nos seus palcos futuros, precisamente porque os aspectos da civilização que eles questionam são mínimos. Ainda que ambos queiram abolir o capitalismo, e o anarquismo clássico abolindo o Estado também, sobretudo as pautas da vida não mudariam muito.

Ainda que possa ter algumas mudanças nas relações socioeconômicas, tais como o controlo dos trabalhadores da indústria e conselhos de bairro em lugar de Estado, e inclusive uma preocupação ecológica, as pautas básicas manter-se-ão sem mudanças. O modelo ocidental de progresso seria meramente emendado e ainda atuaria como um ideal. A sociedade de massas continuaria essencialmente, com a maioria das pessoas trabalhando, vivendo em ambientes artificiais, tecnologizados, e sujeitos a formas de coerção e controlo.

As ideologias radicais na Esquerda buscam obter o poder, não aboli-lo. Por tanto, desenvolvem variadas formas de grupos exclusivos - quadros, partidos políticos, grupos consciencializados - de forma a ganhar seguidores e planear estratégias para aumentar o controlo.

As organizações, para os anarcoprimitivistas, são justamente ferramentas para pôr uma ideologia particular no poder. A política, "a arte e a ciência do governo", não é parte do projeto primitivista; só uma política do desejo, do prazer, do mutualismo e da liberdade radical.


Onde, de acordo com os anarcoprimitivistas, se origina o poder?

Novamente, uma fonte de um debate entre os anarcoprimitivistas. Perlman vê a criação de instituições impessoais ou as relações de poder abstratas como as que definem o momento no qual a anarquia primitiva começa a ser desmantelada pelas relações sociais civilizadas. Em contraste, John Zerzan localiza o desenvolvimento na mediação simbólica - nas suas variadas formas de números, linguagem, tempo, arte e mais tarde, agricultura- como os meios de transição da liberdade humana para um estado de domesticação.

O foco na origem é importante para o anarcoprimitivismo porque o primitivismo procura, de uma maneira exponencial, expor, mudar e abolir todas as formas múltiplas do poder que estruturam as relações individuais, sociais, e as inter-relações com o mundo natural. Localizar as origens é uma maneira de identificar o que pode ser seguramente recuperado do naufrágio da civilização, e o que é essencial erradicar a começar se as relações de poder não comecem após o colapso da civilização.


Que tipo de futuro é imaginado pelos anarcoprimitivistas?

O jornal anarcoprimitivista "Anarchy: A Journal of Desire Armed" ("Anarquia: Um diário do desejo armado"), imagina um futuro que é "radicalmente cooperativo & comunitário, ecológico e feminista, espontâneo e silvestre", e isto será o mais próximo que possa conseguir de uma descrição! Não há anteprojeto, não há pautas prescritas, contudo é importante assinalar que o futuro imaginado não "é primitivo" em nenhum sentido estereotipado.

Como o Fith State disse em 1979: "Vamo-nos antecipar aos críticos, que nos acusariam de quereremos "voltar às cavernas" ou de um mero posicionamento teórico da nossa parte, por exemplo, desfrutando do conforto da civilização enquanto somos os seus críticos mais duros. Nós não colocamos a Idade de Pedra como um modelo da nossa Utopia [,] não estamos sugerindo uma volta à caça e colecta como um meio para a sobrevivência". Como um corretivo para essa interpretação errônea tão comum, é importante assinalar que o futuro imaginado pelos anarcoprimitivistas é impreciso e sem antecedentes.. Ainda que as culturas primitivas forneçam indícios de como será o futuro, e este futuro pode muito bem incorporar elementos derivados daquelas culturas, um mundo anarcoprimitivista será provavelmente muito diferente das formas prévias de anarquia.


Como o anarcoprimitivismo vê a tecnologia?

John Zerzan define a tecnologia como "o conjunto da divisão do trabalho/produção/industrialismo e o seu impacto em nós e na Natureza. A tecnologia é a soma das mediações entre nós e o mundo natural e a soma daquelas separações que nos mediam um dos outros. É toda a farmacopeia e a toxicidade requerida para produzir e reproduzir o estado de hiper-alienação no qual definhamos. É a textura e a forma de dominação em qualquer dos estágios de hierarquia e dominação presentes". A oposição à tecnologia joga portanto um importante papel na prática anarcoprimitivista. De todas formas, Fredy Perlman diz que "a tecnologia não é nada mais que o arsenal do Leviathan", as suas "garras e caninos". Os anarcoprimitivistas são aqueles que se opõem à tecnologia, mas há algum debate sobre como central é a tecnologia para a dominação na civilização. Uma distinção deve ser feita entre ferramentas (ou utensílios) e tecnologia.

Perlman mostra que os primitivos desenvolvem toda classe de ferramentas e utensílios, mas não tecnologias: "Os objetos materiais, as canas e canoas, as ferramentas para cavar e paredes, eram coisas que um só indivíduo poderia fazer, ou eram coisas, como uma parede, que requer a cooperação de muitos numa ocasião particular… A maioria dos utensílios são antigos, e o [material] excedente (que supostamente estes utensílios fizeram possível] tem estado disponível desde o primeiro alvorecer, mas não deram lugar ao nascimento de instituições impessoais. As pessoas, os seres vivos, deixaram que surgissem ambos". As ferramentas são criações numa escala pequena, localizada, os produtos ou bens de indivíduos ou de grupos pequenos em ocasiões específicas. Como tais, não deram origem a sistemas de controle e coerção. A tecnologia, por outro lado, é o produto de um longo processo, encadeando sistemas de extração, produção, distribuição e consumo, e tais sistemas adquirem a sua própria dinâmica e impulso. E como tais, pedem estruturas de controlo e obediência numa escala de massas - o que Perlman chama instituições impessoais.

Como o Fifth State interconexões e estratificações das tarefas que constroem os modernos sistemas tecnológicos fazem necessários comandos autoritários e independentes, impossibilitando a tomada de decisões individuais. "O anarcoprimitivismo é uma corrente antissistema: opõe-se a todos os sistemas e instituições, abstrações, o artificial, o sintético, e o mecânico, porque isso incorporam relações de poder. anarcoprimitivistas, portanto, opõem-se à tecnologia e ao sistema tecnológico, mas não ao uso de ferramentas e utensílios nos sentidos que se indicaram aqui.

E quanto a quais formas tecnológicas seriam apropriadas num mundo anarcoprimitivo, há um debate sobre esta questão. O Fifth State remarcou em 1979 que "Reduzindo aos seus elementos mais básicos, as discussões sobre o futuro devem ser sensíveis sobre o que desejamos socialmente e, portanto, isto determina qual tecnologia é possível. Todos nós desejamos aquecimento central, vasos sanitários e luz eléctrica, mas não às custas de nossa humanidade. Talvez sejam possíveis juntos, mas talvez não".


E sobre a medicina?

Fundamentalmente, o anarcoprimitivismo é sobretudo curar - curar as fendas abertas dentro dos indivíduos, entre as pessoas, e entre as pessoas e a Natureza, as fendas que se abriram através da civilização, através do poder, incluindo o Estado, o Capital e a Tecnologia.

O filósofo alemão Nietzsche disse que a dor, e a maneira como é tratada, teria que estar no centro de qualquer sociedade livre, e no que diz respeito a isto, ele esta certo. Os indivíduos, as comunidades e a própria Terra foram mutilados num grau ou em outro pelas relações de poder características de civilização. As pessoas foram mutiladas psicologicamente mas também fisicamente agredidas por males e doenças!... Isto não é sugerir que o anarcoprimitivismo possa abolir a dor, os males e a doença. De qualquer maneira, as investigações revelaram que muitas doenças são os resultados das condições de vida civilizada, e que se estas condições fossem abolidas, então certos tipos de dor, males e doenças desapareceriam.

E para os que ficassem, um mundo que situa a dor como o seu centro, será vigoroso no seu empenho em acalmá-lo, encontrando maneiras de sanar os males e doenças. Neste sentido, o anarcoprimitivismo está muito implicado com a medicina. De qualquer jeito, a alta-tecnologia alienadora, a forma fármaco-centrada da medicina praticada em Ocidente não é a única forma de medicina possível. A questão de em que consistirá a medicina num futuro anarcoprimitivista depende, como no comentário anterior do Fifth State sobre tecnologia, no que é o possível e em qual é o desejo das pessoas, sem comprometer o modo de vida dos indivíduos livres em comunidades livres centradas ecologicamente. Como em qualquer outra pergunta, não há respostas dogmáticas a esta questão.


E sobre a população?

É uma questão controversa, largamente porque não há consenso entre anarcoprimitivistas neste tema. Algumas pessoas argumentam que não será necessária uma redução da população; outros argumentam que será em razões ecológicas e/ou para manter os diferentes modos de vidas imaginados pelos anarcoprimitivistas. George Bradford, em How Deep is a Deep Ecology? ("O quão profunda é uma Ecologia profunda?") argumenta que o controle das mulheres sobre a reprodução conduzir-nos-á a uma queda na taxa da população. O ponto de vista pessoal deste escritor é que a população precisará ser reduzida, mas que isto ocorrerá através de uma redução natural - por exemplo, quando as pessoas morrem, nem todas serão substituídas, e por tanto a população global cairá e eventualmente se estabilizará.

Os anarquistas têm longamente argumentado que num mundo livre, as pressões sociais, econômicas e psicológicas para uma reprodução excessiva seriam substituídas. Teria outras muitíssimas coisas interessantes em marcha para engajar o tempo das pessoas! As feministas têm argumentado que as mulheres, liberadas dos constrangimento de gênero e da estrutura familiar, não serão definidas pelas suas capacidades reprodutivas como nas sociedades patriarcais, e disto resultaria níveis inferiores de população também. Por tanto a população seguramente baixará, queira ou não. Apesar de tudo, como Perlman elucida, o aumento da população é um puro produto da civilização: "um incremento estável no número de humanos [é] tão persistente como o próprio Leviathan. Este fenômeno parece existir só entre os seres humanos Leviathanizados. Os animais assim como as comunidades humanas em estado natural não proliferam ao ponto de empurrar todas as outras espécies fora do campo". Por tanto não há realmente uma razão para supor que a população humana não se estabilizará uma vez que as relações sociais Leviathanicas tenham sido abolidas e a harmonia comunitária seja restabelecida.

Ignore as estranhas fantasias difundidas por alguns comentaristas hostis ao anarcoprimitivismo que sugerem que os níveis de população imaginados pelos anarcoprimitivistas deverão ser conseguidos com uma mortandade em massa ou ao estilo dos campos nazis de extermínio. Estas são apenas tácticas caluniadoras. O compromisso dos anarcoprimitivistas com a abolição de todas as relações de poder, incluindo o Estado com todo o seu aparelho administrativo e militar, e qualquer espécie de partido ou organização, significa que tais matanças orquestradas ficam impossibilitadas como também os cenários horríveis.


Como poderemos chegar a um futuro anarcoprimitivista?

A pergunta premiada! (Para utilizar uma metáfora inteiramente suspeita!) Não há regras rígidas aqui, não há anteprojeto. A resposta fácil - vista por alguém como uma saída fácil - é que as forma de luta emergem no curso da insurgência. Isto é verdade, mas não é necessariamente de muita ajuda!. O facto é que o anarcoprimitivismo não é uma ideologia que procura poder. Não procura capturar o Estado, tomar as fábricas, ganhar seguidores, criar organizações políticas, ou governar as pessoas. Pelo contrário, quer que as pessoas passem a ser indivíduos livres vivendo em comunidades livres que são interdependentes umas de outras e com a biosfera que habitam. Isto requer, então, uma total transformação, uma transformação da identidade, dos modos de vida, das formas de ser, e das formas de comunicação. Isto quer dizer que, as comprovadas intenções das ideologias que procuram o poder, não são relevantes para o projeto anarcoprimitivista, que procura a sua abolição. Por tanto precisam de ser desenvolvidas novas formas de ser e de atuar, formas apropriadas para e proporcionais ao projeto anarcoprimitivista. Este é um processo continuo e não há uma resposta fácil para a pergunta: O que deve ser feito?

No presente, muitos estão de acordo de que comunidades de resistência são elementos importantes no projeto anarcoprimitivista. A palavra "comunidade" é utilizada estes dias de toda e de maneiras absurdas (por exemplo, na comunidade dos negócios), precisamente porque a maioria das comunidades genuínas foram destroçadas pelo Capital e o Estado. Alguns pensam que se as comunidades tradicionais, frequentemente fontes de resistência ao poder, foram destruídas, pois criaram comunidades de resistência - comunidades formadas por indivíduos que têm como objectivo em comum a resistência - é uma forma de recriar bases para a ação. Uma velha ideia anarquista é que o mundo novo tem que ser criado sem a concha do velho. Isto significa que quando a civilização entrar em colapso - por causas internas, pelos nossos esforços, ou uma combinação de ambos- terá uma alternativa esperando ocupar o seu lugar.

Isto é realmente necessário como, na ausência de alternativas positivas, a ruptura social causada pelo colapso pode facilmente criar insegurança psicológica e um esvaziamento social no qual o fascismo e outros totalitarismos ditadores podem florescer. Para o autor, isto significa que os anarcoprimitivistas precisam desenvolver comunidades de resistência - microcosmos (tantas quanto possíveis) do futuro que virá- tanto em cidades como no campo. Estas comunidades de resistência precisam de funcionar como bases para a ação (particularmente a ação direta), mas também como lugares para a criação de novos formas de pensamento, conduta, comunicação, e ser, e por ai vai, assim como novas direções éticas - em resumo, uma nova cultura inteiramente libertadora. Precisam tornar-se lugares onde as pessoas possam descobrir os seus autênticos desejos e prazeres, e através da velha ideia anarquista da obra exemplar, ensinar aos outros com o exemplo de que modos alternativas de vida são possíveis. De qualquer maneira, há muitas outras possibilidades que precisam ser exploradas. O tipo de mundo imaginado pelos anarcoprimitivistas é um mundo sem precedentes na experiência humana, em termos do grau e dos tipos de liberdade antecipadas… portanto não podem ter nenhum limite nas formas de resistência e de insurgência que possam possivelmente se desenvolver. O tipo de vasta transformação imaginada necessitara de toda espécie de pensamento e atividade inovador.


Como posso encontrar mais sobre anarcoprimitivismo?

O Primitivist Network (PO Box 252, Ampthill, Beds MK 45 2ZQ) pode vos oferecer uma lista de leitura. Confira as publicações do grupo britânico Green Anarchist e os "zines" americanos Anarchy: A Journal ofDesire Armed e o Fifth State. Leia Against His-story, Against Leviathan ("contra a (sua) história - contra o leviatã") de Fredy Perlman, (Detroit: Black&Rede, 1983) o texto anarcoprimitivista mais importante , e os livros de John Zerzan: Elements of Refusal (Seattle: Left Bank, 1988) e Futuro Primitivo (New York: Autonomedia, 1994).


Como posso me envolver com o anarcoprimitivismo?

Uma maneira é entrar em contato com o Primitivist Network, enviando-se dois selos de primeira classe, para receber uma cópia da lista de contatos do PN e assim estará adicionado a ela. Isto coloca-lo-á em contato com outros anarcoprimitivistas. Algumas pessoas envolvidas com a Earth First! também veem a si mesmos como anarcoprimitivistas, e eles também estão procurando contatos.



*Autor: John Moore...


Anarquista britânico (1957-2002), professor, escritor e ativista.
Membro do Grupo de Pesquisa Anarquista em Londres,
 na década de 1980, foi um dos principais
teóricos do anarquismo pró-Situ da
década de 1990; seu trabalho
mais conhecido é o ensaio
"A Primitivist Primer".


8 de set de 2014

Navio de Tolos (Ship of Fools) num Curta de Animação!


Navio de Tolos - You Tube

Depois de fazer este post aqui, achei esta charge ilustrando um outro post do conto "Navio de Tolos" no blog Anarquista.Net:

















Como dizem
por aí:
qualquer
semelhança
com fatos ou
pessoas reais
(não) é uma
mera...
... coincidência?

6 de set de 2014

Navio de Tolos - Por Ted Kaczynski

("Emprestado" lá do blog AnarcoPrimitivismo...)

NAVIO DE TOLOS

Era uma vez um capitão e os imediatos de um navio que ficaram tão vaidosos da sua marinheiraria, tão cheios de insolência e tão impressionados com eles mesmos, que enlouqueceram. Eles viraram o navio para o norte e velejaram até encontrarem icebergs e campos de gelo, e continuaram a velejar para norte para águas mais e mais perigosas, somente para lhes dar oportunidades para realizarem façanhas cada-vez-mais-brilhantes de marinheiraria.

À medida que o navio alcançava latitudes cada vez mais altas, os passageiros e a tripulação ficaram cada vez mais desconfortáveis. Eles começaram a ter disputas entre eles e a queixarem-se das condições em que viviam.

"Os meus ossos tremem", disse um marinheiro hábil, "se essa não é a pior viagem que eu já estive. O convés está escorregadio com gelo; quando eu estou de vigia o vento corta pelo meu casaco como uma faca;  sempre que eu enrolo as velas quase congelo os meus dedos; e tudo o que eu ganho com isso são  uns miseráveis cinco xelins por mês!"

"Você acha que está mal!" disse uma passageira. "Eu não consigo dormir à noite por causa do frio. As senhoras neste navio não têm a mesma quantia de cobertores que os homens. Não é justo!"

Um marinheiro Mexicano soou junto: "¡Chingado! Eu só estou ganhando a metade do salário dos Anglo-marinheiros. Nós precisamos de bastante comida para nos mantermos quentes neste clima, e eu não estou ganhando a minha parte; os Anglos ganham mais. E o pior de tudo é que os imediatos sempre me dão ordens em Inglês invés de em Espanhol."

"Eu tenho mais razão para reclamar do que todos," disse um marinheiro Índio Americano. "Se os cara-pálida não tivessem me roubado das minhas terras ancestrais, eu nem estaria neste navio, aqui entre icebergs e ventos árticos. Eu só estaria remando numa canoa num lago agradável e plácido. Eu mereço compensação. No mínimo, o capitão deveria permitir que eu organizasse um jogo de dados para que eu pudesse ganhar algum dinheiro."

O contramestre falou: "Ontem o primeiro imediato me chamou de "fruta" só porque eu chupo paus. Eu tenho o direito chupar paus sem ser chamado de nomes por isso!"

"Não são apenas os humanos que são maltratados nesse navio," exclamou um amante de animais entre os passageiros, a sua voz tremendo de indignação. "Ora, na semana passada vi o segundo imediato chutar o cachorro que vive no navio duas vezes!"

Um dos passageiros era um professor universitário. Apertando as mãos ele exclamou: "Isso tudo é terrível! É imoral! É racismo, sexismo, especismo, homofobia, e exploração da classe trabalhadora! É discriminação! Nós temos que ter justiça social: Salários iguais para o marinheiro Mexicano, maiores salários para todos os marinheiros, compensação para o Índio, cobertores iguais para as senhoras, um direito garantido para chupar paus, e não mais chutar o cachorro!"

"Sim, sim!" gritaram os passageiros. "Ai-ai!" gritou a tripulação. "É discriminação! Nós temos que exigir os nossos direitos!"

O camaroteiro limpou a sua garganta.

"Ha-ham. Todos vocês têm boas razões para se queixar. Mas me parece que o que nós realmente precisamos fazer é virar esse navio e rumar de volta para o sul, porque se nós continuarmos indo para o norte com certeza iremos mais cedo ou mais tarde naufragar, e então os seus salários, os seus cobertores, e o seu direito de chupar paus não vos vão adiantar nada, porque nós todos nos iremos afogar".

Mas ninguém prestou atenção nele, porque ele era apenas o camaroteiro.

O capitão e os imediatos, nos seus postos na popa, estavam observando e ouvindo. Agora eles sorriam e piscavam-se entre si, e com um gesto do capitão o terceiro imediato desceu da popa, passeou para onde os passageiros e a tripulação estavam reunidos, e abriu caminho entre eles. Ele fez uma expressão muito séria na sua face e disse exatamente assim:

"Nós oficiais temos que admitir que algumas coisas realmente indesculpáveis têm acontecido neste navio. Nós não havíamos percebido o quão má estava a situação até ouvirmos as suas queixas. Nós somos homens de boa vontade e queremos fazer o melhor para vocês. Mas - bem - o capitão é um tanto conservador e tem os seus modos, e talvez tenha que ser informado um pouco antes de fazer quaisquer mudanças substanciais. A minha opinião pessoal é que se vocês protestarem vigorosamente - mas sempre pacificamente e sem violar quaisquer das regras do navio - vocês irão tirar o capitão da inércia e forçá-lo a dar atenção aos problemas dos quais vocês se queixam tão justamente".

Tendo dito isso, o terceiro imediato dirigiu-se de volta para a popa. Enquanto ele ia, os passageiros e a tripulação gritaram para ele, "Moderado! Reformista! Bom-liberal! Bobo do capitão!" Mas eles fizeram como ele disse. Eles se reuniram num grupo ante a popa, gritaram insultos aos oficiais, e exigiram  os seus direitos: "Eu quero maiores salários e melhores condições de trabalho," clamou o marinheiro hábil. "Cobertores iguais para as mulheres," clamou a senhora passageira. "Eu quero receber  as minhas ordens em Espanhol," clamou o marinheiro Mexicano. "Eu quero o direito de organizar um jogo de dados," clamou o marinheiro Índio. "Eu não quero ser chamado de 'fruta", clamou o contramestre. "Sem mais chutar o cachorro," clamou o amante de animais. "Revolução agora", clamou o professor.

O capitão e os imediatos amontoaram-se e deliberaram por vários minutos, piscando, concordando com a cabeça e sorrindo uns aos outros enquanto isso. Então o capitão deu um passo à frente da popa e, com uma grande demonstração de benevolência, anunciou que o salário do marinheiro hábil seria aumentado para seis xelins por mês; o salário do marinheiro Mexicano seria aumentado para dois-terços dos salários dos Anglo-marinheiros, e a ordem para enrolar as velas seria dada em Espanhol; as senhoras passageiras iriam receber um cobertor a mais; o marinheiro Índio seria permitido de organizar um jogo de dados nos Sábados à noite; o contramestre não seria chamado de 'fruta' contanto que ele  chupasse o pau de forma estritamente privada; e o cachorro não seria chutado a menos que ele fizesse algo realmente mau, como roubar comida da cozinha do navio.

Os passageiros e a tripulação celebraram essas concessões como uma grande vitória, mas na manhã seguinte, eles estavam novamente se sentindo insatisfeitos.

"Seis xelins por mês é uma ninharia, e eu ainda congelo os meus dedos quando enrolo as velas," resmungou o marinheiro hábil. "Eu ainda não estou ganhando os mesmos salários dos Anglos, ou comida suficiente para este clima," disse o marinheiro Mexicano. "Nós mulheres ainda não temos cobertores suficientes para nos mantermos aquecidas," disse a senhora passageira. Os outros tripulantes e passageiros exprimiram queixas similares, e o professor os encorajou.

Quando eles terminaram, o camaroteiro falou - mais alto dessa vez para que os outros não pudessem ignorá-lo facilmente:

"É realmente terrível que o cachorro seja chutado por roubar um pedaço de pão da cozinha do navio, e que as mulheres não tenham cobertores iguais, e que o marinheiro hábil tenha os seus dedos congelados; e eu não vejo porque o contramestre não deva chupar paus se ele quiser. Mas olhem quão densos os icebergs estão agora, e como o vento sopra cada vez mais severo! Nós temos que virar este navio de volta para o sul, porque se nós continuarmos para o norte nós iremos naufragar e nos afogar."

"Oh, sim," disse o contramestre, "É realmente horrível que nós continuemos rumando para norte. Mas porque eu tenho que continuar a chupar paus no armário? Porque eu tenho que ser chamado de 'fruta'? Eu não sou tão bom como todos os outros?"

"Velejar ao norte é terrível," disse a senhora passageira. "Mas você não vê? É exatamente por isso que as mulheres precisam de mais cobertores para mantê-las aquecidas. Eu exijo cobertores iguais para as mulheres agora!"

"É realmente verdade," disse o professor, "que velejar para o norte impõe grandes apuros em todos nós. Mas mudar o rumo em direção ao sul seria irrealístico. Você não pode voltar o relógio. Nós devemos encontrar uma maneira responsável de lidar com a situação."

"Olhem", disse o camaroteiro, "Se nós deixarmos esses quatro loucos lá na popa fazerem como querem, nós todos nos afogaremos. Se nós conseguirmos retirar este navio do perigo, então nós poderemos nos preocupar com as condições de trabalho, cobertores para mulheres, e o direito de chupar paus. Mas primeiro nós temos que virar esta embarcação para o outro lado. Se alguns de nós nos juntarmos, fizermos um plano, e demonstrarmos alguma coragem, nós podemos nos salvar. Não seria preciso muitos de nós - seis ou oito dariam. Nós poderíamos atacar a popa, atirar aqueles lunáticos ao mar, e virar o navio para o sul."

O professor elevou o seu nariz e disse austeramente, "Eu não acredito em violência. É imoral".

"Não é ético usar violência jamais", disse o contramestre.

"Eu tenho pavor de violência," disse a senhora passageira.

O capitão e os imediatos estavam observando e ouvindo tudo aquilo. A um sinal do capitão, o terceiro imediato desceu para o convés principal. Ele passou pelos passageiros e a tripulação, dizendo que ainda havia muitos problemas no navio.

"Nós fizemos muito progresso," disse ele, "Mas resta muito ainda a ser feito. As condições de trabalho para o marinheiro hábil ainda são duras, o Mexicano ainda não está ganhando os mesmos salários dos Anglos, as mulheres ainda não têm os mesmos cobertores que os homens, o jogo de dados aos Sábados à noite do Índio é uma compensação insignificante pelas suas terras perdidas, é injusto para o contramestre que ele tenha que continuar a chupar o pau no armário, e o cachorro ainda é chutado às vezes".

"Eu acho que o capitão precisa ser informado novamente. Iria ajudar se vocês todos fizessem outro protesto - contanto que ele permaneça não-violento."

Enquanto o terceiro imediato caminhava de volta à popa, os passageiros e a tripulação gritaram insultos para ele, mas mesmo assim fizeram o que ele disse e reuniram-se à frente do convés da popa para outro protesto. Eles discursaram e enfureceram-se e brandiram os seus punhos, e eles até mesmo atiraram um ovo podre ao capitão (que ele se esquivou habilmente).

Após ouvir as queixas, o capitão e os imediatos amontoaram-se para uma conferência, durante a qual eles piscaram e ficaram amplamente risonhos entre eles. Então o capitão deu um passo à frente do convés da popa e anunciou que seria dado luvas ao marinheiro hábil para manter os seus dedos aquecidos, o marinheiro Mexicano iria receber três quartos do salário de um Anglo marinheiro, as mulheres iriam receber mais um cobertor, o marinheiro Índio iria poder organizar um jogo de dados nas noites de Sábados e Domingos, o contramestre seria permitido a chupar paus após escurecer, e ninguém poderia chutar o cachorro sem permissão especial do capitão.

Os passageiros e a tripulação estavam em êxtase sobre essa grande vitória revolucionária, mas pela manhã seguinte eles estavam novamente a sentir-se insatisfeitos e começaram a resmungar sobre os mesmos velhos sofrimentos.

O camaroteiro dessa vez estava ficando furioso.

"Seus tolos malditos!" gritou. "Vocês não veem o que o capitão e os imediatos estão fazendo? Eles estão mantendo vocês ocupados com as suas queixas triviais sobre cobertores e salários e o cachorro sendo chutado para que vocês não pensem sobre o que realmente está errado com este navio  - que está indo cada vez mais longe para o norte e nós todos nos iremos afogar. Se somente alguns poucos de vocês recuperarem a razão, juntarem-se, e atacarem o convés da popa, nós poderemos virar este navio de volta e salvarmo-nos. Mas tudo o que vocês fazem é choramingar sobre questões insignificantes e triviais como condições de trabalho e jogos de dados e o direito de chupas paus".

Os passageiros e a tripulação estavam exasperados.

"Insignificantes!!" gritou o Mexicano, "Você acha que é razoável que eu ganhe somente três quartos dos salários de um Anglo marinheiro? Isso é trivial?"

"Como você pode chamar minha queixa de trivial?" gritou o contramestre. "Você não sabe quão humilhante é ser chamado de 'fruta'?"

"Chutar o cachorro não é uma "questão insignificante e trivial!" berrou o amante de animais. "É insensível, cruel, e brutal!".

"Tudo bem então", respondeu o camaroteiro. "Essas questões não são insignificantes e triviais. Chutar o cachorro é cruel e brutal e é humilhante ser chamado de fruta. Mas em comparação com o nosso problema real - em comparação com o facto de que o navio ainda está rumando a norte - as suas queixas são insignificantes e triviais, porque se nós não virarmos este navio logo, nós todos nos iremos afogar".

"Fascista!" disse o professor.

"Contrarrevolucionário!" disse a dama passageira. E todos os passageiros e a tripulação soaram um após o outro, chamando o camaroteiro de fascista e de contrarrevolucionário. Eles afastaram-no para longe e voltaram a resmungar sobre salários, cobertores para mulheres, sobre o direito de chupar paus, e sobre como o cão era tratado. O navio continuou a navegar para  norte, e após um tempo foi esmagado entre dois icebergs e todos morreram.


Por Ted Kaczynski, 1999.

5 de set de 2014

Fotografia - agonia, realidade e êxtase

A imagem pode mostrar da agonia mórbida ao êxtase erótico.
É isso que encontramos no site de Julieta Benoit, que nos traz tristezas, esperanças, lutas e alegrias, como nessas amostras dos ensaios fotográficos "Rio Tietê Um Dia Vou Beber Você", "Nude Black Bloc" ou "No Corpo"...
















4 de set de 2014

"Um Conto Moderno"

("Emprestado" lá do blog Gente Chimarrona...)

UM CONTO MODERNO

Numa bela tarde, ao passar por perto de um rio, um próspero comerciante deparou-se com um pescador fumando tranquilamente o seu cigarrinho, recostado junto a uma canoa. Horrorizado com aquilo, o comerciante bruscamente parou e perguntou àquele pescador:

-- Por que você não está pescando?

-- Porque eu já pesquei bastante por hoje -- respondeu o pescador.

-- Mas por que você não sai para pescar mais peixes?

-- E o que eu ia fazer com mais peixes? -- perguntou o pescador.

-- Você venderia os peixes e ganharia dinheiro. Com o dinheiro, você poria um motor na sua canoa, e assim você iria mais rápido e mais longe, para pescar mais peixes. E aí, então, você teria dinheiro para comprar redes novas de nylon, e poderia pescar mais peixes ainda, e ganharia ainda mais dinheiro. E logo você teria dinheiro para ter outra canoa, e também mais redes. E poderia ficar rico, rico como eu.

-- E o que eu ia fazer, se ficasse assim, rico como você? -- perguntou o pescador.

-- Você poderia descansar e aproveitar a sua vida -- finalmente.

-- Mas afinal, o que você acha que eu estou fazendo agora? -- respondeu então o satisfeito pescador...



Conto de origem desconhecida
(Em uma versão das Edições Natura naturans)